O estilo BOHEMIAN (BOHO) e arquitetura IBICENCA do filme “Loving Ibiza”

(Este texto foi publicado pela primeira vez em 04 de julho de 2018)

Em tempos de minimalismo, design nórdico e consumo consciente, talvez a máxima “mais é mais” esteja bastante fora de moda e em pouco tempo vai estar beirando o politicamente incorreto.

Enquanto isso, na estética bohemian (boho) ela segue como um emblema, como um objetivo a ser alcançado: as casas que aderem ao mais flamboyant dos estilos não se afinam com ausências e não dão espaço para o espaço. Muito pelo contrário! Nelas, o “vazio” e o “clean” não têm conotação de elogio nem merecem ser enaltecidos. Eles se rendem ao “over” e ao “tudo junto e misturado” sem causar um pingo de embaraço àqueles que aderem à extravagancia congênita do boho.

O ponto mais fascinante desse estilo é a flexibilidade de seus critérios. Nada nele é rijo ou severo. É uma estética que valoriza o dissonante, o divergente; como se de algum modo o caos fizesse sentido. Uma verdadeira ode ao ecleticismo.

Você pode até arriscar em ter um ambiente com pitadas ou com uma pegada meio boho. Mas para segurar uma casa inteirinha nesse gênero é necessário mais do que um ou outro objeto étnico posicionado num canto estratégico da sala de estar. É uma linguagem exclusiva para pessoas muito singulares, que carregam consigo uma frugalidade autêntica, um estilo de vida nada tradicional e que não se empenham em fazer parte de nenhum padrão social pré-estabelecido.

A palavara “bohemian” foi cunhada no século XIX na Europa e era designada a um específico grupo de indivíduos errantes provenientes da região da Bohemia (leste da antiga Tchecoslováquia). Um pouco mais tarde, o termo passaria também a designar pessoas desprovidas de nobreza material e vidas não convencionais como artistas, escritores, jornalistas, músicos e atores.

Os boêmios tinham como prioridade a busca constante do prazer e a autoindulgência.  Pregavam o amor livre e por muitas vezes escolhiam em se manter pobres. Para fugir dos olhos inquisitivos daqueles que desprezavam seu modo de ser e agir, começaram a se concentrar em guetos e, consequentemente, por vezes, foram marginalizados.

A ilha de Ibiza serviu de abrigo por um tempo a um desses grupos de excluídos.
Na verdade, há dois mil anos, o local vem sendo frequentado pelos mais diversos povos, das mais diversas etnias.
Quando colônia de fenícios – conhecidamente nômades com dom para artes e aventuras – foi entreposto das maiores rotas comerciais da antiguidade. Em seguida vieram os púnicos, os vândalos, os romanos e os árabes.

Ao ser invadida pelos espanhóis em 1235, adotou o catalão como língua oficial. A partir de 1930, Ibiza começa a abrigar nas ruelas de seu bairro cigano de Sa Penya uma onda de artistas e intelectuais de vanguarda fugidos dos governos opressores de Hitler e Stalin e do frio europeu.

Foi na década de 50 que o turismo na ilha floresceu com as famosas festas de jazz nas areias das praias de Figueretas trazidas dos clubes noturnos de Barcelona. Rapidamente atraiu viajantes de todo mundo.

Como é de se imaginar, uma pequena ilha não passaria incólume a visitações nada convencionas. De ciganos e piratas a contrabandistas de seda e comerciantes de incenso. De hippies e beatniks a cientistas comunistas fugidos da Segunda Guerra. Todos que lá estiveram, deixaram sua marca e consagraram Ibiza com uma estética incrivelmente multicultural. Foi esse lugar bastante sui generis que hospedou o cenário mais boho que eu já vi no cinema, o do filme holandês “Verliefd op Ibiza”.

Sobre o filme:
Comédia no melhor estilo “o filme do verão”. Uma das ilhas paradisíacas mais badaladas do Mediterrâneo se prepara para mais uma temporada de férias. Turistas invadem seus clubes e hotéis com um único objetivo: um veraneio de loucuras e agitação.  De jogadores de futebol frívolos e celebridades mais rasas que um pires à senhoras modernas e DJs wanna-be, a produção holandesa é recheada de clichês, estereótipos, diálogos bobinhos, música eletrônica e só emociona pelo cenário boho e pelos takes de imagens aéreas da ilha. Ilha que abriga Lex, um pop star aposentado e decadente que se prepara para receber a família para comemorar seu aniversário.
Em meio a desencontros forçados e situações que beiram o ridículo, Lex é confrontado o tempo todo pelos que o cercam por ser um homem crescido, porém desprovido de responsabilidade. O filme também conta com várias tramas paralelas, todas bem previsíveis a partir dos primeiros minutos que se desenrolam. Apesar dessa introdução pouco simpática, não posso deixar de pontuar a boa atuação dos atores e admitir que, sim, as trapalhadas de Lex – às vezes – arrancam risos. Vale acrescentar que alguma coisa definitivamente deu certo e agradou o público (e provam que eu ainda tenho muito para aprender sobre cinema): o filme, logo depois de sua exibição, virou série de TV.

Seja bem-vindo!

– A casa

La finca ibicenca” como são conhecidas as tradicionais casas de campo da ilha de Ibiza têm como características principais a sobriedade e a falta de elementos decorativos. Parte dessa identidade se explica pelo isolamento dos povos das ilhas do Mediterrâneo e seus escassos recursos. Na época em que foram construídas, era possível usar apenas o que estava ao alcance de seus criadores. Sendo assim, a finca ibicenca é uma edificação de arquitetura arcaica, formas quadradas e simples, com paredes espessas feitas de pedra, areia e argila, e telhados horizontais sustentados por vigas de madeira sabina. As fachadas são minimalistas e em sua maioria pintadas de cal. Por vezes podem ter o reboco exposto. As casas têm geralmente a entrada orientada para o sul, resguarda por uma montanha atrás para protegê-las dos ventos do norte.

Com o passar do tempo as propriedades foram se aperfeiçoando e se rendendo às exigências modernas como a inclusão de piscinas, jardins, varandas e pérgolas.

O hall de entrada:
Quando me perguntam se é realmente importante decorar um hall de entrada eu apenas respondo: – O hall é o primeiro e o ultimo cômodo que você vê quando visita uma casa. É o ambiente que vai provocar a primeira e a ultima impressão.
A partir daí, cada um tira suas próprias conclusões.

Eu sou do time que defende que o hall precisa ser extremamente prático e deve trazer uma pequena mostra do estilo de decoração da casa que está por vir.

Como era de se esperar, na residência de um roqueiro, os convencionais aparadores com bandeja para chaves, espelho e cabideiro para os chapéus deram lugar a objetos muito incomuns!

Com uma área relativamente grande, Lex pode se dar ao luxo de por ali sua coleção de livros, seu piano (!!!!!!) e uma poltrona estilo Bergère mostarda com uma bela manta indiana. Os adornos ficam por conta da arte abstrata e da luminária de chão dourada super dramática. A praticidade do cômodo foi garantida por um movelzinho que apoia chaves, correspondências e… as garrafas de cerveja antes dele de sair de casa!
Muita informação para um hall?? Sem dúvida! Mas lembre-se: no estilo boho, mais é sempre mais!

– A sala de estar:
Também chamada de “porxo” a sala de estar da finca ibicenca foi criada para ser um espaço público e servir de transição entre o exterior e as áreas privadas da casa. O porxo geralmente é maior cômodo de uma finca (perdendo só para a cozinha, às vezes) e é nele que vamos encontrar as maiores entradas de luz natural da casa.

Na estética boho, uma das coisas que mais me chama a atenção é que seus ambientes passam uma sensação de conforto e aconchego e estão sempre me convidando para ficar. Eu acho que a culpa é dos sofás que se apresentam invariavelmente com volume extra e formas mais arredondas além de acomodarem uma fartura de almofadas e mantas de estilos étnicos e cores quentes.

Os discos de ouro de Lex decoram a parede onde um nicho com prateleiras foi moldado no próprio concreto para acomodar os livros do cantor. No teto, um bom exemplo de como a mistura de objetos tão díspares consegue encontrar harmonia aceitável aos olhos: lustre clássico com peças de cristal divide a atenção com o mobile hippie de fitas e miçangas:

Gosto muito desse encontro da arquitetura rústica, das paredes com reboco irregular e escadaria de pedra com móveis tradicionais como a escrivaninha retrô e o relógio de pêndulo. Instrumentos musicais são objetos com uma plástica belíssima, decoram qualquer ambiente e nesse caso, nos fazem lembrar que estamos na casa de um músico.

Detalhes rústicos da finca ibicenca: teto de madeira do quarto da Bibi, ausência de acabamentos nas portas (batentes e guarnições) e paredes espessas. Para contrapor toda essa sobriedade; a delicadeza da luminária de franjas com cara de brechó.

Como já dito, na arquitetura da finca ibicenca as janelas têm proporções menores. Isso se explica pelo fato de que quando foram construídas, o vidro ainda não existia, portanto, era importante que os moradores da casa ficassem protegidos dos saques dos piratas e dos vândalos (janelas pequenas dificultariam a entrada desses invasores). Havia também a preocupação (já naquela época!) de manter a casa mais confortável termicamente. As janelinhas garantiam pouca entrada de sol, logo, a casa ficaria mais fresca. Outra coisa que as janelas pequenas proporcionam é essa iluminação tipo uma penumbra, muito característica dos templos e salões sagrados. 

– O quintal:

Achei muito bacana como a área externa com pergolado de troncos in natura e teto de esteira de galhos se integrou com a paisagem. O deck sem tratamento (óleos ou impermeabilizantes) mantém o aspecto natural da madeira e também faz uma mescla bem sutil com a natureza.
Os móveis com cara de “faça você mesmo” encheram o lugar de personalidade. E, eu não sei por que, alguma coisa me diz que esse sofá cheio de almofadas indianas é o lugar perfeito para uma tarde de boas conversas regadas a mojitos e margaritas.

– A varanda:

Uma das coisas mais bacanas que alguém pode ter numa varanda é uma mesa para refeições. Compridona e cheia de cor como a do Lex ou pequenina e discreta, não importa!
Você pode ter um café da manhã preguiçoso de domingo, um almoço com a família no feriado, um jantar despretensioso com os amigos num dia de semana. Comer fora (mas em casa!) é um daqueles gestos simples que nos alegram e chacoalham a monotonia.

De dia, a luz natural se apodera do ambiente sem cerimônia, ilumina o horizonte e dá sensação de amplitude. À noite, com o breu, a varanda “encolhe” e o brilho indireto dos lampiões e dos castiçais conferem aconchego e um pouquinho de drama na cenografia (que linda a sombra da Lizzy na parede!).

E mais uma vez, ele, ao fundo, o sofá bohemian explodindo de almofadas, me convidando para uma ciesta depois do almoço de domingo!

– A cozinha:

A cozinha da finca ibicenca pode ser maior ou tão grande quanto o porxo.
Essa, de tamanho generoso, tem as prateleiras de alvenaria como protagonista.  O cômodo segue com as janelas pequenas, concedendo ao ambiente a tal iluminação de lugar sagrado.  A mesa comprida com cadeiras misturadas – um clássico das revistas de decoração – cai como uma luva na estética boho. Detalhe lindinho da luminária pendente de mosaico sobre a pia.

Mais exemplos de que na cozinha boho não há lugar para moderação: a coleção de pratos da vovó decoram a parede enquanto luminárias marroquinas caem do teto. Os utensílios dispostos nas prateleiras vão de narguilé a canecas em Ágatha, bule de prata e coleção de panelas de cobre.

Atenção merecida para as portas de madeira e vidro adaptadas para o nicho de alvenaria onde as taças e copos de vidro são guardados.


– Os quartos:

Os nichos das paredes seguem o padrão acomodando dessa vez os brinquedos dos netos de Lex. Detalhe da iluminação indireta para as arandelas na entrada do quarto e o globo fazendo vez de abajour.

A lareira de canto além de encher o dormitório de charme, é certeza de noites quentinhas no inverno.   

Mais do mesmo: adaptação de portas de madeiras para o nicho de livros no quarto de hóspedes.

Nota máxima para a coleção de quadros antigos que acompanha o desenho dos degraus da escada.

Não esqueça suas roupas de banho e boas férias!!!

Loving Ibiza (2013)
A-Film Netherlands
Ibiza Filmfonds, Nijenhuis & Co and FarmHouse Film and TV Productions
Escrito por Tijs Van Marle, Anne Verboon and Maarten Lebens
Dirigido por Johan Nejenhuis
Produzido por Klass Jong and Johan Nejenhuis
Diretor de Arte: Ruben Shwarts
Cenário: Tijs Van Marle, Annelou Verboon and Maarten Lebens

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