Casa com jeito de casa do filme “ECHO PARK”.

(Esse texto foi publicado pela primeira vez em 23 de junho de 2018.)

Poucas coisas são tão prazerosas para um designer de interiores do que entrar numa casa e entender em poucos minutos que aquele lugar pertence ao dono.

“- A sua cara! ” para mim, trata-se do maior elogio que alguém pode fazer quando visita a minha morada.

Se identifica? Então esse post vai para todo mundo que já entendeu que a decoração bacana vai (muito!!!) além de tendências, modismos e de “certo e errado”.

Na hora de decorar, o mais importante é ser honesto consigo mesmo e tentar evitar de qualquer maneira viver em um ambiente que não tem absolutamente nada a ver com você ou com o seu estilo de vida. A única regra irrefutável de decoração é ser fiel ao que você acredita, ao que você gosta, a sua realidade e ao que seja relevante para você.

Cada indivíduo tem uma bagagem de vida, uma história única e o grande desafio na hora de decorar uma casa é tentar alinhar esse combo de experiências e gostos pessoais com os estímulos externos que o mercado da decoração e do design oferece.

Se conseguirmos equacionar esses fatores com sucesso, teremos como resultado um ambiente singular e que tem tudo a ver com a gente. Não há nada mais desestimulante do que entrar numa casa cheia dos clichês “o material da vez”, “o móvel super na moda”, “ esse acessório-ultimo-grito-da-decoração” e totalmente vazia de personalidade.

O nosso espaço diz muito sobre quem somos e possui grande influência no nosso humor e na nossa maneira de viver. Morar em um lugar que a gente não se identifica é a mesma coisa que ter de conviver intensamente com uma pessoa que a gente não tem a menor afinidade.
Nosso espaço precisa ser uma continuação de quem somos. Ele é o nosso templo, nosso universo particular, é onde a gente se recarrega, o lugar que sentimos vontade de voltar no fim do dia ou depois de uma longa viagem.

No cinema e no teatro os cenários são de extrema relevância para ajudar um autor a compor uma personagem. Você pode não notar, mas um set bem feito te ajuda a entender bastante a personalidade do indivíduo em questão. Quer um exemplo? Você consegue imaginar Amelie Poulan morando numa cobertura minimalista de frente para praia? Acho que não.


A comédia romântica indieEcho Park” gravada no bairro homônimo, na cidade de Los Angeles nos Estados Unidos nos remete para uma vizinhança acolhedora, quase bucólica, de uma época onde as casas tinham uma escala simpática, cômodos de tamanho honesto e que quintal não era considerado um artigo de luxo.
Para uma época onde era possível gastar alguns minutos do dia molhando o jardim com mangueira e cumprimentar o vizinho pelo nome quando se voltava a pé da padaria. Onde os estabelecimentos comerciais tinham vitrines e janelas viradas para rua e não para corredores com ar-condicionado.

É nesse bairro que moram Mateo, Elias e o supervisor musical Alex – um cara cheio de personalidade e casa idem.

Sobre o fime:
Cansada de sua “vida ostentação” vazia e sem sentido em Beverly Hills e de um noivo egocêntrico e arrogante, Sophie usa a Sunset Boulevard inteira para separar seu presente do seu passado: muda-se para o simpático bairro Echo Park no subúrbio de Los Angeles disposta a se redescobrir como pessoa e achar um significado para sua existência. Echo Park se revela um ambiente super amigável e descontraído, com ares de “bairro daquela época”, recheado de edificações simples e originais e que tenta resistir bravamente ao fenômeno da gentrificação. Lá ela encontra Alex, um supervisor musical inglês que, depois de muito tentar, desiste do seu “sonho Hollywoodyano”. Apesar de adorar a Califórnia, Alex decide voltar para o seu país de origem pois recebeu uma proposta de emprego irrecusável. Num clima de chegadas e partidas, em meio a caixas de papelão, compra/venda de móveis e os desapegos que as mudanças exigem, Alex e Sophie tentam aproveitar ao máximo a companhia um do outro até o inevitável momento onde terão que escolher entre seguir com seus planos pessoais de vida ou se entregar ao que estão sentindo um pelo outro. Ah! Tudo isso embalado pela ME-LHOR trilha sonora de todos os tempos!!!

– A fachada:

Construída num terreno de declive, a casa é bem recuada e o acesso se dá por uma escada lateral.  O jardim começando no nível da rua e escalando o terreno deixa a edificação e a vizinhança super agradáveis. Gosto muito dessa ideia de entradas que de certa forma criam uma pequena expectativa ao visitante até que se chegue na habitação.

As telhas de cerâmica, as grades ornamentais, a varanda, as paredes brancas e a linha do telhado assimétrica evidenciam a influência da arquitetura espanhola colonial muito comum e presente no estado da Califórnia.

– A sala de estar:


Entender o tamanho do espaço, suas limitações e ter uma boa noção de como vamos utilizá-lo é o primeiro passo para fazermos escolhas inteligentes.

A pequena sala de estar – como muitas hoje em dia – não tem mais a TV como ponto focal. Se o local for usado apenas para sentar e embalar longas conversas com os amigos, nada melhor do que disponibilizar sofá e poltrona um de frente para o outro. A ausência de mesinha de centro facilita a circulação. Pufes dão conforto extra para as cadeiras de leitura e servem de apoio para bandeja de drinks numa festinha informal.

As cortinas translúcidas amenizam a intensidade da luz natural. Ao dissipar a luminosidade que vem da ensolarada Califórnia, reparem como elas deixam o ambiente com uma claridade menos saturada e super aconchegante.
A porta de entrada tem folha de vidro e persiana de rolinho para garantir a privacidade quando necessário.

A apatia das paredes brancas foi quebrada pela combinação de fotografias (de viagens, lugares preferidos e “fotos conceito”) em molduras de diferentes cores e tamanhos: uma excelente saída principalmente se a grana estiver curta para investir em arte.
Livros dão volume e colorem o ambiente. Arrumados na estante ou empilhados no chão, são um excelente recurso de decoração e dizem muito sobre você.
E para terminar, mil pontos para a escolha do mobiliário com ar modernista em madeira cor de mel e tecidos neutros.

– A sala de jantar:

Ser quem você é na decoração implica em usar a casa para suas necessidades e sempre ao seu favor. Nem que isso custe quebrar algumas convenções. Alex é supervisor musical e como tal, possui uma coleção incontável de discos e CDs. No nicho da sala de jantar, em vez do tradicional armário para louças, uma estante sob medida para acomodar o estimado acervo do rapaz.

Luz pendente sobre a mesa deixa o mais corriqueiro dos jantares com clima de festinha. Fotografia oversize e uma plantinha discreta próxima a estante decoram o ambiente. A mesa redonda com proporção adequada deixa o espaço com fluidez no ponto.

– O quarto:

Honestamente, o quarto do Alex de início não provoca grandes emoções, mas aos poucos conquista pela simplicidade. Gosto da coerência de estilo se repetindo na paleta de cores neutras, nas cortinas (agora não tão fluidas) dos janelões para varanda (como deixam o quarto acolhedor!!!), nas fotografias da parede e nos móveis e luminárias. Destaque para a cadeira de balanço LARS (Ray and Charles Eames) bem no cantinho, servindo de “cabide” para as roupas usadas (quem nunca?). Uma manta com desenho gráfico p&b contrasta com a roupa de cama branca.

– A varanda:

Eu não sei se eu começo pela cerâmica vermelha desbotada (outra influência da arquitetura espanhola colonial), pelo guarda-corpo de ferro torcido com desenho vintage, as cadeiras de plástico trançado (inspiradas na icônica Acapulco), a mesa de madeira apoiando velas e revistas, os potes de barro com suculentas gigantes ou o fato dela ser to-di-nha aberta. Eu só sei que eu seria capaz de morar nessa varanda e que todas as “sacadas gourmets” e invencionices do gênero poderiam voltar para seu lugar de origem pois não fariam a menor falta para mim!

– A mudança:
Conforme o filme vai passando, a casa de Alex vai se transformando. Primeiro, caixas de papelão começam a aparecer timidamente nos cantos da sala e do quarto. Em seguida, um objeto aqui outro acolá desaparecem. A mudança vai tomando o seu curso natural em paralelo com a evolução do relacionamento de Alex e Sophie. Em dado momento você percebe que a casa deixa de ser apenas um cenário e passa a ser um componente importante da história, quase que um personagem; responsável por marcar a passagem do tempo e ser o ponto de interseção entre o fim da historia de um e o começo da história de outro.

Iluminação:
O poder do abajour! Ainda que sua casa esteja sob o caos de uma mudança e sua sala não tenha sequer onde se sentar, lance mão da luz indireta de uma linda luminária para criar um clima bacana naquelas ultimas festinhas de despedida. Com design retrô, base de cerâmica colorida, haste comprida de madeira e cúpula oversize; esse abajour do Alex não só enche o ambiente de charme durante a noite como também se transforma em uma bela peça de decoração durante o dia.

Eis que ao final, a casa fica completamente vazia, se transformando em uma tela em branco, preparada para uma nova história que está por vir.

Muito diferente do que vemos por aí, Alex preferiu manter as paredes contrariando a popular estética do “conceito aberto”que integra os ambientes e amplia o espaço. Apesar de todas as virtudes do conceito aberto, devo confessar que gosto muito da possibilidade de criar cantinhos e pequenos nooks que somente uma casa com paredes pode oferecer.

– Eu também, Sophie!!!!

Echo Park (2014):
Array Productions
Turntable Studios
Escrito por Catalina Aguilar Mastretta
Dirigido por Amanda Marsalis
Diretor de arte: Todd Davis
Decoração de cenário: Joni Noe
Produção de Design: Soonja Kroop
Assistente de arte: Ryland Bums

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