O estilo industrial do filme “Um senhor estagiário” (THE INTERN)

(Esse texto foi publicado pela primeira vez em 15 de junho de 2018)

Talvez uma das mais difundidas e populares nos dias de hoje, a estética industrial surge com muita força e se estabelece como um conceito de decoração no início dos anos 2000, principalmente na costa leste dos Estados Unidos, na cidade de Nova York.

Espaços onde no passado funcionavam fábricas, galpões e oficinas de toda a sorte, hoje abrigam os chamados lofts – amplos apartamentos que se aproveitam dos acabamentos (ou da falta deles!), da exuberante incidência de luz natural e da generosa altura dos pés-direitos desses antigos edifícios.

É interessante e curioso ver estes espaços – por vezes hostis e impessoais – onde no passado era possível apenas ouvir o barulho de máquinas e grandes engrenagens trabalhando a todo vapor, agora transformados em acolhedoras áreas de convivência cheias de personalidade e estilo.

A criatividade dos arquitetos e interior designers levaram o look industrial não só para as residências como também para as áreas comerciais. Atualmente, não raro é esbarrar com uma loja, um restaurante, um estúdio e até um escritório nos grandes centros urbanos que não tenham a marca da plástica industrial e suas características peculiares.

O cenário da empresa About the Fit do filme norte-americano “The Intern” é um bom exemplo disso.
Eu confesso que sou fã de Nancy Meyers (diretora e roteirista), não só por ela saber explorar as relações humanas e pequenos dilemas existenciais contemporâneos com leveza e muita graça, mas também porque os sets de seus filmes são invariavelmente uma grande fonte de inspiração para qualquer amante da arquitetura e do interior design.

Sobre o filme:
Aulas de yoga e thai-shi, viagens para destinos paradisíacos, amizades coloridas, netinhos… Ben Whittaker tentou de tudo para preencher as horas ociosas da sua vida de aposentado viúvo. Com décadas de experiência em administração de negócios e disposição de sobra, decidiu voltar a trabalhar e se inscreveu num programa de estagiários da terceira idade. Após um rápido processo de seleção, foi contratado pela empresa de Jules Ostin, a dona do e-commerce “About the Fit” – uma típica millenium que, sozinha, construiu um pequeno império digital de moda. Os dois com personalidades e bagagens bastante distintas nunca imaginaram o quanto poderiam aprender um com o outro e que dessa inusitada relação nasceriam uma grande parceria de trabalho e uma amizade pra lá de bacana!

A About the Fit é uma empresa de comércio digital no ramo da moda que funciona numa antiga fábrica de catálogos telefônicos em Red Hook, Brooklin. “We are all about communication and team work” (Nosso lema é comunicação e trabalho em equipe) diz um dos funcionários da ATF ao recepcionar o novo time de estagiários.

Para uma firma com esse tipo de filosofia, a planta aberta pode ser uma excelente opção. Entretanto, muitas são as polêmicas que giram em torno do famoso layout “open space” (planta aberta) no mundo corporativo.

O layout “planta aberta” basicamente consiste em derrubar paredes e divisórias com o propósito de não só aumentar o espaço interno, mas de promover maior interação entre os funcionários. Uma tentativa de horizontalizar um pouco as hierarquias (todos trabalham no mesmo ambiente: do assistente ao gerente). Somado a isso, há também alguns benefícios de ordem prática que vão desde a limpeza do local e manutenção de equipamentos à economia de energia.

As maiores reclamações dos profissionais que trabalham em escritórios abertos são a falta de privacidade visual (computador) e o barulho. Além disso, alguns estudos já mostraram que nem todos esses benefícios práticos acima listados puderam ser devidamente comprovados.

Divergências a parte, o certo é que há muito tempo esse tipo de conceito de planta vem sendo utilizado em alguns ramos da indústria como redações de jornais e revistas, agências de publicidade e escritórios de arquitetura e design. Mas agora tenta-se expandir a ideia para outros nichos, principalmente para o dos negócios digitais como a “About the fit”:

Seja bem-vindo!

A fachada:

Típica e inconfundível: fachada industrial de tijolinhos aparentes e grandes janelas com armação de metal. Gosto muito da discrição do letreiro da firma. Sem excessos ou grandes firulas.

A rua e os olhos de quem passa sempre por ali agradecem!

– A sala comum:

Uma foto e muitas referências: a ausência de paredes dá amplitude e profundidade ao espaço. O chão de cimento, tetos sem acabamento, rebaixamento ou tratamento acústico (reparem nos tubos de ar condicionado, água e elétrica aparentes), a sequência de colunas e vigas. A altura do pé-direito e a profusão de luz natural.

Mobiliário discreto, de linhas retas e cartela de cores neutras (branco, preto e cinza): duas decisões espertas para evitar conflito visual com os produtos de moda geralmente ricos em cores e formatos.

Tudo junto e misturado: as mesas de trabalho emparelhadas garantem comunicação rápida e facilitam o trabalho em equipe, dizem os defensores da planta aberta.

A iluminação fica a cargo das luminárias pendentes: uma característica proeminente do estilo industrial. É importante observar a altura na hora da instalação de modo a maximizar sua eficiência. Reparem (abaixo) que para dar maior destaque à sala privada, uma pequena desobediência no padrão: a luminária preta é substituída por uma “Discocó” (Christophe Mathieu) branca:

Os tijolos aparentes da fachada se repetem em alguns espaços internos. Ora em sua cor original, ora pintados de branco (abaixo) suavizando de certa forma o componente visual. O chão de pranchas de madeira aquece o ambiente enquanto as tubulações elétricas deslizam sem pudor pelas paredes.

– A sala de espera

A sala onde Ben espera para ser entrevistado é um ambiente simples, de cores neutras mas nem por isso pouco interessante. Os sofás e poltronas de linhas retas em tecido off-white fazem um belo contraste com a parede escura. A mesa de centro de design moderno chama atenção pelo volume. O tapete de sisal é uma boa pedida para ambientes de grande circulação: além de fáceis de limpar, são resistentes e não acumulam muita poeira. Destaque para as luminárias de chão bacanérrimas “Grashoppa” (Greta Grossman) juntos às mesinhas laterais.

– As salas de reuniões ou os espaços privados:

As salas privadas podem ser utilizadas tanto para reuniões como para pequenas conversas e assuntos que exigem sigilo. As divisórias de vidro e metal se encarregam de isolar os barulhos e demarcar o espaço. Elas obedecem ao padrão dos janelões em arco da antiga fábrica. Gosto muito dessa coesão e repetição de materiais.

E se o problema for privacidade visual, persianas de rolinho podem dar conta do recado:

Outro recurso para dar destaque à sala de reuniões e também promover conforto térmico e sonoro é o carpete.  Embora o cimento e o carpete tenham texturas completamente diferentes, nesse projeto eles atendem a mesma cartela de cores garantindo harmonia visual ao ambiente como um todo.


– Definindo espaços:

O tapete pode ser um grande aliado do designer quando o desafio é a criar pequenas áreas para diferentes funções num layout de planta aberta. Um espaço dentro do espaço, digamos assim.  A essa técnica dá-se o nome de “zoning” (zoneamento). As fotos abaixo são um excelente exemplo de zoning: perceba que uma salinha de estar (que pode ser usada na pausa do café ou recepcionar um cliente) foi concebida no meio do escritório, bem ao lado das estações de trabalho. Podemos salientar que a posição dos sofás também favoreceu a origem do novo “cômodo”. Esse é um excelente recurso para criar uma atmosfera intimista dentro de um espaço muito amplo e, nesse caso específico, quebrar um pouco da monotonia que ambientes corporativos tendem a ter. Embora inusitada, a salinha segue com congruência a paleta de cores do projeto e com a discrição das linhas retas do mobiliário. O charme foi garantido pelas almofadas e o vaso de rosa vermelhas.

– A sala (não-sala) da chefa:

Lembra da história de horizontalizar as hierarquias? Pois é.  O escritório da Jules – chefona da About the Fit – é junto aos funcionários, num cantinho em frente a uma grande sala de reuniões. Isso permite que a líder esteja sempre disponível, acessível ao staff e claro, tomando conta de tudo (Jules é conhecida pela dificuldade de delegar tarefas e micro-gerenciar a ATF.). A única coisa que a separa do resto de sua equipe é o lindo tapete de sisal embaixo da mesa (olha o zoneamento aí de novo!!). Adoro a composição com as cadeiras de acrílico “Victoria Ghost” (Phillippe Starck) e a luz difusa do abajur que deixa o espaço super aconchegante!

– A sala de entrevistas:

Numa sala onde janelas, paredes e radiadores são brancos, vale confrontar a neutralidade com ousadia não só na tonalidade dos elementos de decoração como também no mix de estilos: a modernidade da cadeira “Eames DSW” (Charles and Ray Eames) em rosa pink e da mesa lateral “Tulip” (Eero Saarinen) contrastam com o jeito meio cigano das estampas Boho no tapete de franjas e na almofada bordada, ambos de cores quentes. Para aquecer ainda mais o ambiente; mesinha de centro em madeira reciclada. A estante de metal com rodízios e o chão de cimento imprimem o selo da estética industrial. E lembrem-se: na falta de espaço nas paredes, quadros ficam ótimos arranjados no chão!

– A cafeteria:

Já em ambientes onde a base de cor é mais escura, toda luz natural precisa ser aproveitada. A ideia de cobrir as janelas com móveis estaria totalmente fora de cogitação se não fossem essas estantes de linhas retas e estrutura simples construídas com vãos enormes entre as prateleiras possibilitando a entrada da claridade e garantindo espaço para armazenar os acessórios transparentes da cafeteria. As cadeiras “Eames DSW” (Ray and Charles Eames) brancas fazem belo contraste com o chão de madeira desgastada. Lindo!

– Trabalho em equipe:            

Apesar de se tratar de um blog de decoração não posso deixar de pontuar o trabalho de equipe entre os designers de cenário e figurino desse filme. Como vimos acima, a cartela de cores escolhida para a About the Fit é super neutra (cinza branco e preto) sendo assim, Jules é vista vestindo vermelhos e magentas de forma recorrente. Uma forma bem sacada de destacar a personagem principal numa fotografia quase sempre abarrotada de informação!

The Intern (2015)
Warner Bros. Pictures
Escrito e dirigido por Nancy Meyers
Produção: Waverly Films
Diretor de Arte: Dough Huszti
Decorador de Cenário: Suzan Bode-Tyson
Assistente de Decoração: Sarah Dennis
Consultor de Design: Mark D. Sikes
Property Master: Peter Gelfman

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